Futebol feminino: fora das quatro linhas, eles ainda comandam

A Copa do Mundo de futebol feminino, sediada na França, em julho deste ano, esquentou o debate sobre a categoria. As barreiras para que uma mulher se torne uma jogadora de futebol ainda não foram quebradas, mas com os olhos do mundo voltados para o futebol feminino, os estigmas gradualmente estão sendo desconstruídos.

O que ainda engatinha para evoluir é a atuação das mulheres como técnicas de futebol, mesmo dentro da própria modalidade feminina. Das 24 seleções que disputaram o mundial de 2019, apenas nove foram comandadas por mulheres. Na maioria das vezes, elas estavam ocupando outro cargo da comissão técnica, correspondendo a 33,3% dos profissionais.

A técnica do Comercial (MS) acredita que houve um avanço após a competição, mas que ainda há um longo caminho a ser percorrido. “Contribuiu, mas ainda falta muito para ter igualdade no futebol feminino. Espero que os clubes abram as portas para as mulheres mostrarem seu trabalho, isso já seria um incentivo”, projeta a treinadora.

Para ela, a injustiça é o principal fator que faz os homens ainda estarem no comando de grande parte dos times femininos. Mas ela conta que, particularmente, quando era atleta sofria mais do que sofre agora. “Naquela época as coisas não eram como são hoje, todo o apoio é importante. Como técnica, não tive nenhuma situação de preconceito, só as dificuldades de sempre”, conta.

Quando o assunto é Brasil, o cenário se torna ainda mais preocupante. Dos 16 em disputa pelo Campeonato Brasileiro Feminino A-1, apenas 1 é comandado por uma mulher. O destaque é Tatiele Silveira, do Ferroviária (SP), que recentemente concluiu sua Licença A da CBF. Emily Lima, que estava à frente do Santos (SP), entregou o cargo após seu time ser eliminado pelo da colega.

“Acredito que é um pouco mais complicado para as mulheres”, reconhece o atual treinador do time feminino do São Paulo, Lucas Piccinato. Ele considera muito baixa a presença de treinadoras mulheres no futebol feminino brasileiro e acredita que a tendência ao machismo na modalidade seja a responsável por isso.

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Ainda assim, ele acredita que esse panorama vem atravessando um processo de mudança. “Você já começa a ter alguns expoentes trabalhando: Emily Lima, que treinou o Santos, Tatiele [Silveira] na Ferroviária, a Ana Lúcia [Gonçalves] que treinou o Palmeiras. Isso é importante para chamar mais a atenção das que estão tentando entrar no mercado”, pondera.

Em contrapartida, a Bacharel em Educação Física e dirigente Rayane Diniz, falou à reportagem sobre o baixo interesse das mulheres em se especializar nessa área. “Por isso toda essa hegemonia masculina”, comenta. Para ela, independente do gênero, o mais importante para o time é procurar o melhor profissional, mais capacitado e que possa oferecer melhores resultados para a equipe.

Futebol feminino: Jogadoras reconhecem as diferenças

A reportagem conversou com a goleira do time feminino do São Paulo, Rubiana Pereira, conhecida como Rubi. Dos 13 anos como jogadora profissional, trabalhou com nove treinadores homens e somente duas técnicas mulheres. Para ela, as diferenças no trabalho entre os dois gêneros são mínimas e que as metodologias de treino variam de pessoa para pessoa, independente do sexo.

Porém, a goleira destaca que, dos comandantes que já teve, duas mulheres se mostraram mais dedicadas.

“Acredito que [se destacaram] pelo fato de existir o preconceito na posição que elas ocupam e [por] terem que mostrar com muito mais afinco o quanto são capazes de realizar o trabalho delas assim como um treinador homem”, justifica. “Isso é péssimo porque quem sai perdendo somos todos nós. Se ela tem capacidade, se ela tem competência, por que não? Por que existe essa barreira? Não se trata de gêneros e sim de resultados. Eu acho que é isso que qualquer investidor, qualquer pessoa que está envolvida em alguma coisa requer: resultados”, completa Rubi.

 

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Goleira da equipe feminina do Minas, Krishna Albuquerque conta que esteve sob o comando de apenas uma mulher na escolinha de futebol de sua mãe. Ela acredita que essa realidade poderia ser mudada com o incentivo e investimentos da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Para a atleta, o ideal seria que a entidade disponibilizasse um curso específico para as mulheres, já que as mesmas são obrigadas a fazer a orientação com homens.

 

Futebol feminino: mesmo mulher, Piá gera controversas

Emilly Lima, que atuou como volante dentro das quatro linhas, foi uma das precursoras do movimento de técnicas mulheres, sendo a primeira a comandar uma Seleção Brasileira feminina. Apesar de significativa, sua liderança durou pouco, cerca de dez meses. Em julho, após a eliminação do time canarinho na Copa do Mundo, Pia Sundhage assumiu a prancheta.

Para Lucas, a contratação da treinadora sueca Pia Sundhage para o comando da Seleção Brasileira representa muito para a modalidade, por se tratar de uma pessoa com excelentes resultados internacionais. “Acredito que com o tempo, cada vez mais as atletas vão conseguir entender a filosofia dela, entender o nível de trabalho dela e as coisas devem se encaixar. Mas ela precisa de tempo, acho que isso é o mais importante”, defende o treinador do São Paulo.

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A técnica Romilda pensa diferente. Para ela, a contratação da bicampeã olímpica pela seleção estadunidense e vice pela seleção sueca, mesmo que mulher, não é certo, pois defende a ideia de ter uma brasileira ali. “Na minha opinião, não faz sentido um técnico estrangeiro à frente da nossa seleção, deveria dar chance para quem está trabalhando aqui e conhece melhor nossos clubes. Se será um marco na nossa história, só o tempo poderá dizer”, finaliza a comandante do Comercial.

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