Torcedores esbarram em empecilhos para montar álbum feminino

É ano de ineditismo para o futebol brasileiro: uniforme exclusivo, transmissão ao vivo dos jogos e a versão feminina do álbum da Copa do Mundo.

Fã de futebol, o pesquisador Lucas Miguel de Carvalho, 27, coleciona os cromos da competição desde 1998, quando tinha sete anos de idade. Contudo, as edições que ele possui são ainda mais antigas: Lucas comprou as anteriores e até tem um álbum de 1986.

Palmeirense, o pesquisador acompanha o time feminino do Verdão pelas redes sociais do clube. Além disso, sempre assiste aos jogos femininos da Copa, tanto que está tentando viabilizar a transmissão das partidas deste ano no salão principal do IFSP (Instituto Federal de São Paulo), em Bragança Paulista, onde trabalha.

Ele, que se divide entre Bragança e Campinas, afirma não ter encontrado o álbum na primeira cidade e que, só em Campinas identificou o produto em algumas bancas. “Na Copa [masculina] teve. Por que nessa Copa Feminina não vai ter?”, argumenta o torcedor.

Na capital paulista a situação não é diferente. Mesmo trabalhando no centro de São Paulo, a iconógrafa, Tatiana Lubarino Ferreira, 33, também não conseguiu encontrar com facilidade o colecionável. Ela passou por três bancas na região e nada. No dia seguinte vasculhou em seu bairro, na Zona Noroeste da cidade e se decepcionou mais uma vez.

“Voltando para casa sempre passo por uma banca na Avenida Edgard Faccó, para ir ao ponto de ônibus. Não tinha, mas por sorte o rapaz da banca encomendou para mim: o álbum e as figurinhas. Já minha namorada, que mora em Campinas, não teve dificuldades em achar”, comenta.

Reprodução/CBF
Reprodução/CBF

Distribuição falha é pivô da falta de revistas

A responsável pelos álbuns de futebol circulados no país é Editora Panini, criada na Itália, mas com sede no Brasil. Um das grandes distribuidoras de São Paulo é a Brancaleone, responsável pela disposição da capital, com cerca de 2.700 bancas cadastradas.

Segundo o gerente comercial Álvaro Pifoeiro como é o primeiro ano da revista da categoria, eles foram pegos de surpresa e a demanda foi maior que a produção. “Estamos cientes dessa procura e a editora já está reimprimindo mais exemplares para colocar nas bancas. Mesmo com essa falta, tivemos um sucesso de venda além do esperado”, contraria Álvaro.

De acordo com ele, 150 mil envelopes de cromos foram enviados para a loja desde o início das vendas, que começou há 40 dias. Álvaro explica que não existe uma quantidade pré-definida por banca, pois “depende muito do histórico de vendas de cada uma delas”. O gerente revela, ainda, que durante a competição masculina foram distribuídos mais de 17 milhões de cromos.

A reportagem entrou em contato com a Editora Panini, com quase uma semana de antecedência, e a empresa disse que não poderia responder a demanda.

Para torcedor, preço das figurinhas também desestimula os compradores

Uma das partes divertidas de se colecionar um álbum é poder trocar figurinhas com os amigos. Como se não bastasse as dificuldades para comprar, o preço é outro fator não agrada.

“O álbum está o mesmo preço do masculino, mas as figurinhas estão R$0,50 cada, estava R$0,40 as do masculino. Então me perguntei se realmente era para ter aumentado tanto se você quer incentivar alguma coisa”, questiona Lucas. Mesmo com a diferença mínima, ele faz as contas e estima que para montar um livro sem repetição o interessado gastaria entre R$ 420 e R$ 450.

Outro argumento defendido por Lucas é o fato da Copa feminina contar com 24 seleções, enquanto a masculina teve 32 equipes participantes. “Eu achei que este ano estaria mais barato ou, pelo menos, um preço equiparável com o do masculino. Se estivesse bem barato, eu acho que ia ter uma adesão gigantesca”, opina.

Ainda sim, as mudanças não atingiram grande parte da população brasileira, principalmente o público masculino. Torcedores como Valdemir Bezerra afirmam não acompanhar as canarinhas e que, provavelmente, não assistirão aos jogos.

“Eu não gosto do futebol feminino, não vejo a maior graça e muito menos estava sabendo que ia ter Copa do Mundo. Esse negócio aí, de pegar essas meninas para fazer campeonatos não vai pegar. Não tem torcida, não lota estádio, elas não jogam como o masculino”, declara.

Com as transmissões na TV aberta e fechada, não há desculpas para não acompanhar a Seleção. As divulgações nas redes sociais para promover a categoria no país já estão sendo feitas. Com isso, as dicas para o público são: incentive a equipe feminina do seu time, vá ao estádio vê-las e as divulgue. Aos poucos as barreiras são derrubadas, mas ainda é preciso vencer a maior de todas: o machismo.

“Não é que eu seja machista, mas futebol não é coisa pra mulher. O masculino já não anda lá essas coisas, imagina de mulher. Futebol é raça! Mulher é mais delicada, não tem essa raça toda, é a minha opinião”, completa Valdemir.

O jovem Thiago Martins, 17 anos, acredita que o título ajudaria a promover a categoria no Brasil. “Elas ganhando essa que vai ter agora, vão ganhar moral e respeito, porque não é nenhuma um que ganha uma Copa. Então, se ganharem agora elas vão ter um valor maior e o pessoal vai ter gosto de vê-las jogar de novo”. Ainda sim, a afirmação do jovem não justifica a discrepância entre uma modalidade e outra, já que os resultados negativos do time masculino não alteram o fato de terem toda a atenção do torcedor, dos patrocinadores e da mídia.

Mesmo com falhas, ineditismo no Brasil traz evolução para 2019

Para a psicóloga comportamental, Meiry Kamia, a mudança de atitude dos torcedores é uma construção gradativa e que tem um longo caminho pela frente. Ainda sim, reconhece que a comercialização de álbuns e figurinhas pode ser uma ferramenta para combater o machismo, que tanto atrapalha as mulheres que se dedicam ao futebol.

“Isso ajuda a diminuir o comportamento machista porque a gente começa a enxergar a mulher como uma agente do esporte. A gente começa a admirar a mulher não só pela beleza, mas pela competência dela, pela capacidade que ela tem de chutar uma bola, de fazer um drible, de fazer uma boa defesa”, explica.

Além do ponto de vista técnico, o popular comprova na prática essa teoria. Torcedoras como a secretária-executiva, Karina Santos, 33, se sente positiva em relação ao produto inédito. “Para ser sincera não tenho o álbum, mas vi em algumas bancas do centro de São Paulo. Me chamou a atenção porque nunca tinha visto. Espero que tenha muita repercussão”, diz.


Por: Aline Silveira, Eloyd Augusto, Nahida Almeida e Tamires Febronio

Edição: Danielle Mugarte

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