The English Game: não é só futebol; mas é apenas futebol

“Bons tempos em que só os cavaleiros jogavam”. Esta frase carregada de preconceito é dita sem o menor pudor em um dos episódios da minissérie The English Game (2020), disponível na Netflix.

Se ela fosse escutada atualmente, poderíamos imaginar se tratar de uma indignação contra o fato de mulheres jogarem futebol. Mas não. No contexto da minissérie, o lamento se referia ao fato de homens pobres e operários estarem jogando futebol e participando da tradicional FA Cup – uma competição que existe até hoje e é conhecida por aqui como Copa da Inglaterra.

The English Game
The English Game

Mais do que uma forma de matar a saudade do futebol durante esses tempos de paralisação dos campeonatos devido à pandemia do novo Coronavírus, The English Game escancara como o jogo que tanto amamos reflete problemas vistos na sociedade como machismo, racismo, preconceito por classe social e desigualdade.

Se hoje ainda lutamos pelo espaço da mulher no futebol, um dia foram os homens negros que tiveram que driblar o preconceito para praticar o esporte. Entretanto, a minissérie mostra que nos primórdios da modalidade, foram os operários de classe social mais baixa que desafiaram as convenções sociais.

Parece surreal imaginar que em algum momento, um esporte tão popular como o futebol, que dá oportunidade de mudança de vida para tantas meninas e meninos carentes, tenha sido dominado pelos mais ricos.

Mas é justamente isso que a minissérie da Netflix retrata. De um lado temos o Old Etonians, o time dos ricos; do outro, está Darwen, o time dos operários. Logo no primeiro episódio, após abrir vários gols de vantagem, o time dos ricos, liderado pelo personagem Arthur Kinnaird, é surpreendido com um empate pelo time dos operários, que havia acabado de contratar o escocês Fergus Sutter.

Por sinal, a contratação é feita justamente com o intuito de desafiar o domínio dos ricos no futebol — um time de operários conseguir erguer a taça da FA Cup seria algo inimaginável. Vale ressaltar que a contratação gerou polêmica entre os jogadores do próprio Darwen, uma vez que até então não se recebia para jogar futebol, era pura e simplesmente por amor ao jogo.

Mais do que um embate de dribles, defesas, gols e táticas, vemos uma luta pelo direito de jogar futebol. Afinal, por que uma pessoa deve ser impedida de praticar o esporte? Pelo simples fato de ser mulher, negro ou no caso de The English Game, operário e pobre? É dessa forma que podemos dizer que é só futebol, é só um jogo e não há motivo para impedir que qualquer pessoa o pratique.

Como se a vida dos jogadores do time operário já não fosse difícil o suficiente, pela necessidade de conciliar serviço pesado, salários baixos e condições precárias de vida com treinos e viagens para jogos, a própria associação de futebol, composta por jogadores do time dos ricos, colocava ainda mais empecilhos e regras injustas que favoreciam os mais abastados. 

É como se fizessem tudo para que os operários soubessem que não eram bem-vindos ali, ao mesmo tempo em que se sentiam ameaçados pelos mais pobres e julgavam ter direito sobre o jogo porque o inventaram.

Mesmo assim os operários não desistiam. Isso não é só futebol. Mais do que um simples jogo, o esporte se tornou uma ferramenta para que os operários se afirmassem como parte importante e valorosa da sociedade. Como tal, eles tinham o direito de ocupar espaços, inclusive dentro de campo.

A presença deles em campo tornou mais difícil para os donos das usinas ignorarem a sua existência e continuar a tratá-los como meras peças da engrenagem que lhes gerava lucro. Aqueles operários que reclamavam, faziam greve e tinham pouco ou nenhum direito respeitado, eram os mesmos oponentes que eles enfrentavam.

É aí que o futebol se torna um coadjuvante da minissérie, um pano de fundo para os conflitos sociais de uma Inglaterra do século XIX. Enquanto se enfrentavam no campeonato, patrões e empregados também travavam batalhas motivadas por corte de salários. Como é dito na produção: – “Isso é maior que o futebol”.

Um ponto interessante de The English Game é que ela mostra que preconceitos podem ser quebrados. Vemos isso por meio de Arthur, que ao longo dos episódios vai abrindo os olhos para a injustiça sofrida pelos operários.

A minissérie ainda tem o bônus de retratar temas importantes como violência doméstica, sofrida pela mãe de Fergus; e desigualdade de gênero, ao trazer a história de mães solteiras à trama.

Mas nem tudo é seriedade em The English Game — também podemos nos encantar com o fofo romance entre Jimmy Love, outro jogador escocês contratado pelo time dos operários; e Doris Platt, a dona da pensão onde Jimmy e Fergus se hospedaram.

Ficou interessado na minissérie? Então confere só o trailer para ter um gostinho:

 


*Esta reportagem foi por Nahida Almeida e revisada por Gabriela Andrade. As reproduções deste conteúdo devem indicar que a produção é da Agência Maria Boleira e mencionar os nomes da autora e revisora. 

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