Iqra Ismail, a muçulmana que ultrapassou as fronteiras da Somália para democratizar o futebol

O estigma a respeito do futebol feminino está enraizado no mundo todo. Para as muçulmanas, ser uma atleta profissional da categoria é um desafio ainda maior. E é com esse cenário que Iqra Ismail 20 anos, está tentando mudar o jogo.

A jovem é fundadora do primeiro time de futebol feminino para minorias étnicas, o Never Underestimate Resilience Football Club – ou Nunca Subestime a Resiliência Futebol Clube, em português -, mais conhecido como NUR. 

Iqra Ismail - Reprodução
Iqra Ismail – Reprodução

Além de idealizadora, Iqra atua como treinadora e meio-campista dentro das quatro linhas. Hoje ela mora em Londres, mas é de família somali. Em dezembro do ano passado a jovem carregou a faixa de capitã da primeira seleção de futebol feminino da Somália.

Diante de toda trajetória de Iqra Ismail no futebol feminino, a Maria Boleira conversou de forma exclusiva com ela para conhecer um pouco mais dessa história. Confira na entrevista abaixo.

Agência Maria Boleira:  Quando você começou a jogar futebol? Como sua família reagiu?

Iqra Ismail: Eu comecei a jogar com mais ou menos 8 anos. Os professores diziam que era um esporte para garotos, mas eu nunca escutei e continuei jogando. Quando eu vi, tinha me apaixonado! Foi estranho no começo porque não é algo que as garotas da minha comunidade façam, mas minha mãe e meus irmãos sempre me foram meu maior apoio.

MB: Em que momento descobriu que queria ser profissional?

Iqra Ismail: Acho que no ensino médio. Eu sabia que seria difícil, havia várias barreiras para mim que não havia para outras mulheres. Antes do NUR eu joguei no Wealdstone LFC, Old Actonians LFC and Brentford WFC e cheguei a pensar em desistir. Mas quando fundei o clube ganhei a motivação que precisava.

MB: Você chegou a receber uma oferta para jogar nos Estados Unidos, mas por medo do movimento anti-islâmico acabou desistindo. Como foi isso?

Iqra Ismail: Sim, eu tive a oportunidade de ganhar uma bolsa de estudos para jogar futebol em uma universidade dos Estados Unidos. Naquela época era uma grande chance para minha carreira deslanchar, lá havia muito mais oportunidades para o futebol feminino. Porém, a proposta veio uma semana depois da eleição do Donald Trump e minha mãe ficou preocupada com a minha segurança por causa do crescente movimento racista e islamofóbico. Ela não quis que eu fosse e hoje acho que foi a escolha certa.

MB: Foi nesse momento que você pensou em desistir?

Iqra Ismail: Sim, eu cheguei a jogar por 7 ou 8 meses porque não achava que tinha motivo para continuar. Minha confiança ficou abalada na época.

MB: E como surgiu a ideia de fundar o NUR?

Iqra Ismail: Eu percebi que não havia lugares seguros e confortáveis para mulheres negras, islâmicas, asiáticas e de minorias étnicas em geral, jogarem futebol. E isso fazia com que muitas mulheres simplesmente desistissem de jogar. No nosso primeiro treino vieram 13 garotas, no segundo 18 e hoje nós temos mais de 40 mulheres treinando conosco. O clube cresceu muito rápido, provavelmente porque hoje não há nenhum com a proposta de abraçar as minorias.

MB: Só mulheres imigrantes podem entrar na equipe?

Iqra Ismail: Não, todas são bem-vindas! Temos jogadoras de todas as partes: Leste da África, Norte da África, Oriente Médio, Leste Europeu… Somos abertos para todas as mulheres. Inclusive, queremos expandir e criar divisões de base num futuro próximo. Queremos expandir nossa mentalidade de resiliência para as gerações mais jovens.

MB: Quais são seus maiores sonhos hoje?

Iqra Ismail: Eu gostaria de continuar trabalhando para que NUR continue durante muitos anos. Para minha carreira eu quero continuar jogando pela minha seleção. O orgulho que eu senti em representar a Somália foi indescritível e eu quero continuar. Quero também me aprimorar na carreira de treinadora para que eu possa ser uma boa técnica depois de me aposentar. Mas nós temos que ver para onde a vida vai nos levar, nunca sabemos o que pode acontecer.


*Esta reportagem foi por Cecília Quevedo e revisada por Danielle Mugarte. As reproduções deste conteúdo devem indicar que a produção é da Agência Maria Boleira e mencionar os nomes da autora e revisora. 

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