Futebol: um direito a ser conquistado

O futebol sempre foi um esporte muito popular nos países do Oriente Médio que se caracterizam pela dominância muçulmana. Desde 2015, o continente e a China representam quase 80% dos investimentos nos esportes do mundo, segundo levantamento da Sovereign Wealth Fund Institute. Dos cinco principais patrocinadores na Europa, três pertencem ao Oriente Médio, são eles: a Autoridade de Turismo do Catar (ATC), Emirates e a Etihad. Além disso, a Copa do Mundo de 2018, ocorrida na Rússia que resultou na vitória da França, foi a Copa mais muçulmana da história, com a participação da Arábia Saudita, Egito, Marrocos, Irã e Tunísia.

Mas todos esses dados referem-se, obviamente, ao futebol masculino. Quando o assunto é “mulheres”, a realidade é bem diferente. Enquanto os homens muçulmanos ganham cada vez mais espaço e visibilidade nos campos e nos estádios, de forma rápida, as mulheres lutam diariamente e lentamente contra o machismo presente no futebol desses países. Atitudes simples e até, de certa forma, comuns para nós brasileiros, como ir aos estádios torcer pelo seu time do coração, são proibidas por lei.

Um exemplo disso é que a Arábia Saudita concedeu o direito às mulheres de frequentarem os estádios apenas no ano passado, em outubro, e ainda assim com algumas restrições. Como todos os lugares públicos, existem dois ambientes: os individuais em que somente homens sozinhos podem frequentar; e os familiares, único local que as mulheres podem frequentar. A decisão ocorreu pouco tempo depois das mulheres conquistarem o direito de dirigir.

O Irã, por exemplo, proíbe, há mais de 35 anos, a frequência de mulheres nos estádios e foi o único na Copa de 2018 a manter essa tradição. Porém, as mulheres estão reivindicando seus direitos. A campanha “Let iranian women enter their stadiums” (“Deixe as mulheres iranianas entrarem em seus estádios”), conduzida pela ativista de direitos humanos iraniano- belga, Darya Safai, é uma das ações efetivas até o momento.

Em 1999, Darya, que estudava na Universidade do Teerã, foi presa por conta de protestos estudantis. Logo depois, foi liberada sob fiança e mudou-se para a Bélgica junto ao marido, pois temia por sua vida. Assim, desde 2014, a ativista leva faixas com protestos contra o banimento de mulheres de estádios e ginásios, quando ocorrem eventos esportivos de grande porte.

Para Safai, “os preceitos islâmicos são os responsáveis por retirarem os direitos das mulheres de circularem nos estádios, já que o ambiente é visto como não adequado para o público feminino”. Este é claramente um reflexo de como a presença feminina é vista na sociedade iraniana, por exemplo. As mulheres que frequentam os estádios são inclusive vistas como prostitutas por estarem no meio de homens e podem ser presas.

“O estádio é como uma pequena parte da sociedade: se você exclui uma mulher do estádio, é como se ela fosse retirada da sociedade”, disse Safai.

Para Safai, as 150 mulheres escolhidas para visitarem o estádio e assistirem ao jogo do Irã contra a Bolívia não significa um avanço, mas sim uma medida de “fachada”. Algumas são escolhidas para assistirem a partida, apenas para fingir que mulheres estão conquistando seus direitos e de certa maneira ter um controle da situação.

Criado em 2005, o grupo “Open Stadiums” é outro coletivo que pede pela liberação das mulheres nos estádios. Desde as eliminatórias da Copa do Mundo de 2006, ocorrida na Alemanha, é possível ver manifestações públicas. Exemplo disso foram as manifestações que ocorreram na frente do estádio Azadi, no Teerã. As manifestantes receberam duras reações e a alternativa encontrada foi desenvolver campanhas de conscientização sobre os direitos das mulheres em locais públicos e entrar em contato com a Fifa e com a Confederação Asiática de Futebol.

Há também a justificativa de que os estádios não permitem mulheres por conta da falta de infraestrutura, mas muitas ativistas defendem que é apenas uma desculpa para satisfazer a parte mais conservadora do Irã, que acredita que é pecado as mulheres entrarem nos estádios.

Porém, apesar da proibição, há quem enfrente a lei para torcer nos estádios. É o caso de Zahra Khoshnavaz, torcedora do Persepolis. Ela utiliza disfarces como barbas falsas e roupas masculinas. Apesar de parecer uma atitude engraçada, Zahra diz não gostar de ter que se submeter a essas coisas. Atitudes como gritar, comemorar e vibrar estão fora de questão pelo perigo de ser descoberta e expulsa. Para conseguirem entrar nos estádios, elas cortam as unhas, usam chapéu, colocam barba e bigode grandes e disfarçam os seios.

Em outubro de 2018, algumas mulheres receberam autorização para assistir uma partida de futebol. Mas o procurador geral do Irã, Mohamed Jafar Montazeri, disse que não permitirá mais mulheres nos jogos masculinos.

A FIFA

Para as ativistas, o silêncio da FIFA incomoda e contradiz o próprio Estatuto da Federação. Os artigos 3 e 4 da norma apontam o compromisso da entidade com os direitos humanos e a luta contra discriminação de qualquer tipo — explicitando a questão de gênero, pela igualdade e neutralidade. Mas não é o que vem ocorrendo ultimamente. A FIFA conhece o problema e prefere agir por meio do diálogo em vez de tomar medidas mais efetivas.

Contexto Histórico

No Irã, as mulheres foram banidas dos estádios após a Revolução Iraniana (1979). Até este ano, o Irã era governado pelo Xá, que é o título de realeza dos monarcas locais, conhecidos por sua autoridade e por seguirem países como EUA e Inglaterra.

Movimentos operários, sindicalistas e islâmicos se reuniram com o intuito de tirar o governo do poder. Dessa maneira, o país se afasta das características ocidentais e se aproxima da União Soviética. Porém, o que antes era uma revolução trabalhista, se tornou uma revolução religiosa e os islâmicos tomaram conta do poder. Com a chegada do governo religioso, o Irã sofreu algumas alterações e passou a ser regida pela Sharia, conjunto de normas do Alcorão.

A Sharia define o que o povo pode ou não pode fazer. A mulher deve ser modesta e evitar muita exposição ao público. Assim, o estádio é visto como um lugar inapropriado, violento e cheio de xingamentos.

Mas se engana quem acredita que as limitações só começaram depois da revolução. Por um lado, o país foi beneficiado com o acesso à educação que era restrito. Em contrapartida, a liberdade de frequentar lugares públicos foi retirada. Até 1987, as mulheres eram proibidas inclusive de assistir às partidas pela televisão.

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