Existe consciência preta no futebol?

Esses dias, enquanto eu rolava minha timeline no Twitter, reparei em algumas comparações:

O maior jogador de futebol é preto.

A maior corredora é preta.

O maior jogador de basquete é preto.

A maior jogadora de futebol é preta.

O maior piloto da F1 é preto.

A maior tenista é preta.

O maior corredor é preto.

Essa falsa simetria de que os corpos pretos estão sendo aceitos mostra o quanto estamos longe de um esporte antirracista. A necessidade de afirmar que os melhores atletas são negros não expõe que, dentro das diretorias não há uma grande representatividade na hora de tomar decisões, como a responsabilidade social e a responsabilidade financeira, por exemplo. De acordo com o levantamento feito pelo O Contra-Ataque, em 2018, apontou-se que apenas 6,2% dos principais cargos no futebol brasileiro são ocupados por pessoas negras. 

Nesse contexto, uma grande vitória que tivemos no futebol feminino foi a ascensão de Aline Pellegrino, campeã panamericana e coordenadora de Competições Femininas da CBF, com passagem na consultoria da Conmebol, além de atuar como diretora de Futebol Feminino na Federação Paulista de Futebol. 

Olhando para o próprio jornalismo esportivo, percebemos o quanto é um campo com poucas vozes negras, em que a branquitude domina na televisão, nas redações e nas transmissões. Em um ambiente que está mudando o seu caráter majoritariamente masculino, as mulheres brancas têm uma maior mobilidade, enquanto as negras ainda lutam para serem as escolhidas entres homens brancos, mulheres brancas e homens negros. Quando as jornalistas superaram esses obstáculos raciais e de gênero, enxergamos o trabalho de nomes como Jordana Araújo,  Rafaelle Seraphim e Karine Alves.

Apesar disso, a realidade traz atos de racismo ainda recorrentes. Em 2019, a jogadora da seleção Ludmila denunciou um ato de racismo enquanto andava dentro de um supermercado na Espanha. Um segurança a acompanhava para verificar se ela roubaria alguma coisa por conta da cor de sua pele. Já durante a Copa do Mundo Feminina, em 2019, a jogadora francesa Wendie Renard foi vítima de ataques racistas sobre seu cabelo, seu corpo e sua cor, depois de eliminar o Brasil.

Não é só um post com a tela preta que te faz antirracista, não é ter um ídolo negro que te faz antirracista, não é chamar pensadores negros só em novembro que te faz antirracista, não é ter um preto que te faz antirracista, não é se relacionar com uma pessoa preta que te faz antirracista. É dar voz, oportunidade e espaço que te faz ter ações antirracistas, como Sócrates dizia a respeito dos jogadores: “Você tem mobilização já pronta, você tem palco, duas vezes por semana, para exercer o seu direito, a ação política, só falta a politização”. Temos que entender que, antes de serem mulheres, essas mulheres são pretas, e por conta de sua cor e de seu gênero, elas são marginalizadas.

Foto do Editorial Naija por Jef Delgado
Foto do Editorial Naija por Jef Delgado

Este conteúdo foi produzido por Rafaela Silva revisado e editado por Isla Ramos. As reproduções devem mencionar a Agência Maria Boleira e os nomes da autora e revisora. 

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