Desigualdade de gênero e o futebol: a luta não para

A 8ª Copa do Mundo Feminina, sediada na França, em 2018, deixou um legado decisivo para o futebol feminino. A edição superou todas as expectativas de público, de cobertura e de telespectadores e jogou um pouco de luz sobre o abismo que existe quando se trata de desigualdade de gênero no futebol. Mas você sabe qual é a trajetória das mulheres para chegar até aqui?

Desigualdade de gênero: história

O futebol é apenas um reflexo do machismo presente na nossa sociedade. As mulheres trabalham na produção das indústrias recebendo os piores salários; nos lares, fazem todo o serviço doméstico sem remuneração; o cuidado com os filhos e a dupla jornada de trabalho (dentro e fora de casa). Por muitos anos, nem o direito ao voto, liberdade de expressão ou ao divórcio as mulheres tinham. 

O futebol já foi considerado, por lei, um esporte exclusivamente masculino, pois “não condizia biologicamente” com a natureza das mulheres. No Brasil, por exemplo, uma lei como esta foi assinada durante a ditadura Vargas. Ela entrou em vigor com o seguinte decreto: 

“Às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza, devendo, para este efeito, o Conselho Nacional de Desportos baixar as necessárias instruções às entidades desportivas do país. “– Artigo 54 do Decreto-Lei 3.199, assinado em 14 de abril de 1941.

Foto: Arquivo Público/Museu do Futebol (1941)
Foto: Arquivo Público/Museu do Futebol (1941)

Com o golpe militar, ocorrido em 1964, a proibição do futebol para as mulheres é reforçada. A luta durou algumas décadas, até que o cenário mudasse. A proibição no Brasil foi extinta em 1979, mas somente em 1983 a categoria começou a ser regulamentada e ainda assim, com grandes diferenças. 

Por muito tempo houve oposição à profissionalização das equipes. Não era permitida a cobrança de ingressos – o que impede o crescimento financeiro do clube – e as partidas tinham menos tempo de duração.

Desigualdade de gênero: evento internacional marca início de uma nova era

Em 1991 foi realizada a primeira Copa Mundial Feminina, na China. Estiveram presentes 12 federações e as primeiras a levantarem a taça foram as estadunidenses. Apesar do avanço por parte das confederações, os veículos de comunicação não demonstraram  interesse em cobrir o evento. Quando as jogadoras apareciam em programas de televisão, eram enaltecidas pelo seus portes físico ao invés de seu talento. Com isso eram obrigadas a manter a “feminilidade”. Exemplo disso foi Sissi, camisa 10 da Seleção antes de Marta, que recebeu inúmeros ataques no fim da década de 90 após raspar os cabelos para homenagear uma criança com câncer.

Desigualdade de gênero: maternidade ainda é tabu nos clubes 

O mesmo cenário que reprimia as mulheres por não estarem dentro dos padrões de feminilidade, as desamparam na maternidade nos dias de hoje. Poucas conseguem se manter nos clubes após a maternidade. Na Espanha, por exemplo, as jogadoras são obrigadas a assinar um contrato com cláusulas “anti gravidez”, que asseguram aos clubes o direito de quebrarem o vínculo sem o pagamento de indenização em caso de gravidez. 

No Brasil a cláusula é vedada pela legislação trabalhista, mas a realidade demonstra o completo desamparo das atletas que se tornam mães, enquanto no futebol masculino, os atletas se tornam pais sem que isso influencie em suas carreiras.

Desigualdade de gênero: machismo escancarado para os grandes de 2019

A edição contou com a participação de 24 países e a equipe dos Estados Unidos, sob a liderança da capitã Megan Rapinoe, levou a melhor mais uma vez. Megan é uma atleta lésbica, ativista pelos direitos LGBTs e pela igualdade de gênero. Com mais este título, a equipe acumula o quarto título, enquanto a masculina nunca foi campeã mundial na modalidade. Apesar de menos lucrativa, o time masculino recebe maior repasse da US Soccer (Federação de Futebol dos Estados Unidos).

Recentemente, a seleção feminina da França, país que sediou a Copa, foi obrigada a ceder o centro de treinamento para que os homens  treinassem para um amistoso, o que demonstra prioridade para o futebol masculino. No Brasil, menos de 1% do orçamento dos clubes é investido na categoria, as premiações são menores e a cobertura midiática ainda engatinha.

Desigualdade de gênero: desigualdade Salarial

O futebol é um dos principais movimentadores de dinheiro do mundo, com transações multimilionárias e salários exorbitantes. Mas essa não é a realidade das jogadoras. As tetracampeãs dos Estados Unidos, citadas anteriormente, recebem até quatro vezes menos do que a equipe masculina.

A Noruega foi um dos primeiros países a avançar nesse sentido, quando decidiu igualar o salário da equipes feminina e masculina. Porém, em declaração, uma de suas principais jogadoras, Ada Hegerber, protestou. “Nem tudo na vida é sobre o dinheiro”.


*Esta reportagem foi por Larissa Finessi e revisada por Danielle Mugarte. As reproduções deste conteúdo devem indicar que a produção é da Agência Maria Boleira e mencionar os nomes da autora e revisora. 

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