Da menina que jogava bola na rua à técnica campeã Sub-18

Ela sempre gostou de futebol, quando criança jogava bola na rua e na escola. Chegou a receber o apelido pejorativo de “menina-macho”. Anos mais tarde, competiu na Liga Universitária dos Estados Unidos (NCAA) e disputou a Copa do Brasil como jogadora entre os anos de 2008 e 2012, até que trocou os campos pelo banco de reservas. Tornou-se treinadora e venceu o Campeonato Brasileiro Feminino Sub-18 pelo Internacional.

Aos 35 anos de idade, encarou um novo desafio: será a técnica à frente do time feminino do Red Bull Bragantino. Estamos falando da treinadora Camilla Orlando, natural de Brasília, que conversou com a Agência Maria Boleira e contou um pouco da sua trajetória.

Camilla relembrou os tempos que jogou nos Estados Unidos, dividiu sua experiência como técnica campeã brasileira sub-18, projetou expectativas para o time feminino do RB Bragantino, ressaltou a importância das categorias de base para as atletas e muito mais. Confira a entrevista a seguir:

Agência Maria Boleira (AMB): Como começou sua trajetória no futebol? Quando criança você foi incentivada a jogar futebol? Chegou a jogar em times no Brasil?

Camilla: Sempre gostei de futebol. Passei por aquele processo de ter apelidos como “menina-macho”. Minha mãe não entendia muito. Eu fazia natação, porém sempre joguei futebol na rua com vizinhos ou na escola. Com 11 anos, comecei a jogar no Colégio Mackenzie. Competi Jogos Escolares, Curitiba Cup e Campeonato Brasileiro em Ubá (MG) em 1998.

Depois entrei na faculdade em 2002 a 2004 e joguei os Jogos Universitários Brasileiros e Taça Brasil de Futsal. Em 2005, fui para os Estados Unidos, lá participei do NCAA Divisão II. Quando voltei em 2008, competi pela Copa do Brasil – 2008 a 2012. Joguei pelo Cresspom contra o Santos de Marta, Cristiane, Aline Pellegrino e companhia. Disputei pela ASCOOP e chegamos nas quartas de final da competição. Em 2012 parei de jogar. 

MB: Como foi a experiência na Liga Universitária dos Estados Unidos?

Camilla: Foi fantástica, uma oportunidade de jogar e compreender de perto, de dentro e de fora dos gramados porque os Estados Unidos comandam o futebol feminino. Uma experiência quase de jogadora profissional, com jogos às quartas e sábados e torcida.

MB: Quais as diferenças entre o futebol feminino no Brasil e nos Estados Unidos?

Camilla: Na minha opinião é toda a trajetória já existente para a menina que quer jogar futebol nos Estados Unidos. Aqui no Brasil estamos criando esse formato, logo logo teremos algumas meninas formadas no futebol. Acredito também que a possibilidade de acesso ao futebol para meninas nos Estados Unidos é muito mais fácil, então tem mais meninas praticando e iniciando na modalidade. Aqui no Brasil, podemos ter mais meninas jogando, mas é preciso espaço.

MB: Você foi campeã brasileira sub-18 com o Internacional em 2019. Como foi essa experiência? 

Camilla: Foi demais, foi o primeiro campeonato brasileiro de base, com uma equipe espetacular, atletas de altíssimo nível, que já disputaram Copa do Mundo Sub-17, Mundial Escolar, entre outras grandes competições. O que mais me marcou foi como conseguimos tornar um time tão bom individualmente (em uma equipe) tão forte coletivamente. Me transformei muito profissionalmente, consegui identificar padrões do futebol feminino, consegui melhorar minha percepção do jogo. 

MB: Como surgiu o convite para treinar o time feminino do Red Bull Bragantino? Qual o tamanho e tipo da estrutura disponibilizada pelo clube?

Camilla: Hoje tenho uma agência cuidando da minha carreira, e elas me auxiliaram em todo esse processo. Há uma estrutura mais do que ideal para um clube que acaba de criar seu departamento de futebol feminino.

MB: Quais as pretensões do time feminino do Red Bull Bragantino? A torcida pode sonhar com títulos?

Camilla: Acredito que a torcida pode sonhar com um time muito dedicado que irá diariamente trabalhar para evoluir e trilhar um caminho de sucesso. 

MB: Qual é o estilo de jogo da técnica Camilla Orlando? 

Camilla: Acredito em um jogo agressivo de posse, com transições rápidas e marcação forte. 

MB: Há alguma técnica que sirva de inspiração para você? 

Camilla: Não me inspiro em uma técnica especialmente, tenho várias profissionais que admiro e gosto de estudar um pouco de cada uma delas. Mas se eu pudesse falar, alguns seriam: Emily Lima, Tatiele Silveira, Patrícia Gusmão e Thayssan.

MB: Quais as diferenças entre liderar um time de base e um time profissional? 

Camilla: Acredito que a complexidade da informação que é transmitida e o nível de cobrança. Mas gosto muito da formação e pretendo continuar auxiliando na formação das atletas, mesmo (atuando) no profissional. 

MB: Qual a importância da base para o futebol feminino? Uma vez que é menos comum que no masculino. 

Camilla: A base auxilia no conhecimento do jogo, no desenvolvimento motor adequado, na evolução técnica refinada, no desenvolvimento emocional. É um processo muito importante para quem sonha com o desenvolvimento da modalidade no país. 

MB: Você está satisfeita com o cenário atual do futebol feminino brasileiro? O que acha que precisa mudar ou melhorar? 

Camilla: Estou muito feliz em estar fazendo parte desse momento, acredito que estamos caminhando e vejo muitas coisas que melhoraram e algumas que podem melhorar. Acho que é questão de tempo agora. E cada um continuar fazendo sua parte. 

MB: Como e onde tem passado esses dias de isolamento em virtude do novo Coronavírus? Já está trabalhando com a comissão e jogadoras, mesmo à distância? 

Camilla: Estamos trabalhando sim, mesmo a distância de alguma forma, estamos tentando aproveitar esse momento para uma apresentação pessoal e sobre o conhecimento do jogo da comissão e atletas. Mas todos torcendo para estar logo em campo.


*Esta reportagem foi por Nahida Almeida e revisada por Gabriela Andrade. As reproduções deste conteúdo devem indicar que a produção é da Agência Maria Boleira e mencionar os nomes da autora e revisora. 

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