A história do futebol tem uma grande reviravolta desde a sua entrada nas casas brasileiras pelos rádios. A sensação de estar conectada com atletas trouxe, de alguma forma, uma ligação com a história de cada jogadora e o que ela faz em seu time. O futebol simboliza a esperança, a voz e a possibilidade de mudança na vida das atletas, mesmo com todos os obstáculos que deverão ser ultrapassados.

A luta pelo direito de jogar bola e de ter reconhecimento é diferente nos lugares ao redor do mundo, e é influenciada pelas diversas culturas e tradições. Nos Estados Unidos (EUA), por exemplo, as jogadoras estão se mobilizando para chegar a uma igualdade salarial dentro dos tribunais de justiça, levantando a bandeira contra a discriminação de gênero, com apoio do público. Enquanto isso, no Brasil, estamos correndo para ter o mínimo de infraestrutura e apoio para não ter grandes disparidades entre clubes grandes e pequenos, como vimos no recente jogo entre São Paulo e Taboão da Serra.

A luta contra o machismo encontra como aliado o futebol feminino brasileiro, que de 1940 até 1979 era proibido no país, e o artigo 54 do decreto-lei 3.199 afirmava: “às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza, devendo, para este efeito, o Conselho Nacional de Desportos baixar as necessárias instruções às entidades desportivas do país”.

Mesmo com a proibição, as mulheres resistiram contra essa “essência feminina” e continuaram jogando, superando o preconceito e os olhares de desprezo de seus vizinhos e familiares, e se dirigiam aos campos de várzeas para aquele “fut de sábado”. A história de Andressa Alves demonstra isso, que qualquer tipo de impedimento não importa quando o futebol fala mais alto, ainda que seja uma cabeça de boneca em vez de uma bola.

Por terem que reunir-se em campos clandestinos, há como enxergar um perfil de jogadoras que saíram das periferias contemporâneas com o objetivo de mudarem a vida de suas famílias, de darem uma casa própria aos pais, de terem acesso ao mínimo. Nossa rainha do futebol, Marta, é um exemplo disso: a atleta morava em um salão dividido em cômodos e evidencia o quanto a necessidade de mudar o seu futuro fez com que ela, na infância, encarasse jogar em times masculinos para tornar-se a maior artilheira da história das Copas, feminina e masculina.

Outras lutas são contempladas no cenário do futebol feminino. Como vimos, antes de começar o primeiro jogo após a parada por conta da pandemia, as meninas do Corinthians se ajoelharam durante o hino nacional, mostrando a coragem de serem contra a violência policial e demonstrando apoio às causas raciais, como Black Lives Matter.

Quando pensamos na trindade do futebol feminino brasileiro, pensamos em Marta, Cristiane e Formiga. O que elas têm em comum? Todas são negras e são exemplos dentro e fora do campo. Jogadoras pretas estão sempre entre as melhores jogadoras do mundo e servem como exemplo de representatividade para meninas negras.

Falando em melhores do mundo, Rapinoe levanta a bandeira LGBT para todos verem e mostra que sem gays no time, você não vence. A capitã da seleção estadunidense já denunciou casos de homofobia nas Olimpíadas do Rio de Janeiro e deixa claro que não canta o hino de seu país por não se sentir representada. A comunidade LGBT está representada no futebol feminino e sendo abraçada pelos fãs, que elogiam as conquistas das atletas no futebol e na vida.

Chegamos ao ponto de tanta opressão que o futebol feminino não se importa com nenhuma retaliação. Isso porque durante toda a vida os obstáculos estavam lá para serem quebrados. O que é se ajoelhar quando você já perde pelo machismo, pela homofobia, pelo racismo? O futebol consciente é visto nas meninas, por isso, a capitã do Taboão da Serra mostrou em uma partida que a garra e as oportunidades devem ser os princípios norteadores do futuro futebol feminino.


Este conteúdo foi produzido por Rafaela Silva revisado e editado por Isla Ramos. As reproduções devem mencionar a Agência Maria Boleira e os nomes da autora e revisora. 

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